Organizar uma campanha eleitoral é como abrir uma empresa que tem como meta a liderança de um setor. Mas em tempo recorde e sem direito a falhas. Sim, é como fundar uma empresa que começa do nada e tem que funcionar em poucas semanas se não perfeitamente, ao menos muito melhor que as suas concorrentes. Essa tarefa inclui desde contratar um grande time que nunca trabalhou junto até estabelecer hierarquias, estruturas, fluxos, padrões, estratégia e táticas. E depois de tudo alcançado, mesmo que seja campeã esta empresa de sucesso está fadada ao mesmo fim das empresas fracassadas: fechar suas portas.
O CANDIDATO
- Tudo começa por você e aqui vou usar uma expressão que jamais uso para definir um candidato, porém como partimos do pressuposto de que a campanha é uma empresa, não tem jeito, aqui vai: você, candidato, não vai ser o dono, nem o presidente, nem mesmo o diretor ou gerente desta empresa chamada campanha. Simplesmente porque você é o único elemento insubstituível, a razão de ser da empresa: isso mesmo, você é o produto (me perdoe de novo pela definição, mas é mais fácil para entender). E se você, produto, tem que se tornar o projeto de vida de todos os funcionários da empresa para ser o objeto do desejo do consumidor final, no caso, o eleitor, tem que estar bem apresentado, atraente, disponível, enfim, não dá pra você ser o “gerentão” e ainda querer estar em tudo que é prateleira, certo?
- Sendo objetivo: você, que é o centro de tudo terá que ir em busca de uma palavrinha mágica chamada profissionalização. Isso mesmo, como nas empresas familiares em determinadas sucessões, você tem que procurar um presidente profissional para a sua empresa, além de um diretor-financeiro, de um diretor de marketing, de um diretor de logística, de um diretor-administrativo, de um diretor de recursos humanos, de um diretor-jurídico…
- Cada empresa, “ops!rs”, cada campanha, estabelece um organograma um pouco diferente da outra, um fluxograma idem. Mas as regras básicas de administração são as mesmas, basta você entender quais são as suas possibilidades (vai ser empresa de fundo de quintal? microempresa? multinacional?) e se ater a ser o mais eficiente dentro da sua categoria. O segundo passo é encontrar “pessoas-chaves” de confiança e de competência comprovada em suas áreas. A partir daí você tem que deixar o barco correr, pois qualquer intervenção sua e poderá ser a gota d’água.
ORGANOGRAMA
- Primeira regra: não deixe que se faça um organograma muito grande. Isso é coisa de amador, de gente indecisa, de gente que quer agradar a torcida e pensa no século retrasado (lembra alguma coisa?). Mas então: campanha não é nem hora nem lugar para fazer política. Calma, eu explico: é claro que uma campanha é sobre política e que é preciso abrir espaço para o máximo de gente participar, mas tome cuidado para não burocratizar o que deve funcionar sem entraves: o que vamos chamar de sua diretoria-executiva. Esta deve ser acima de tudo eficiente. E ponto final.
COORDENADOR-GERAL
- A primeira pessoa a ser escolhida é o presidente da empresa, no nosso caso o coordenador-geral de campanha. É ele quem vai dar o tom, o ritmo do trabalho. Sugiro que você busque um executivo de alto padrão, embora essa gente queira cada vez menos se envolver com campanhas eleitorais. Mas insista, que vale a pena: sempre tem um sujeito pronto para ser mordido pela mosca azul da competição. Pense bem. Pode ser um amigo seu, alguém que já trabalhou com você, um familiar, sobretudo alguém em quem você confie.
- Sério, você tem que confiar na pessoa para quem você vai entregar o seu futuro. Pense em alguém que tenha poder de decisão (e vontade de exercê-lo), bom caráter, capacidade de liderança e boas condições de saúde, disposição e disponibilidade. Também tem que ser alguém disposto a morrer por você, ou pelo menos pela sua causa. Se você encontrar alguém com estas qualidades, meio caminho estará andado.
- O coordenador-geral de campanha, juntamente com você, é quem deve formar a equipe. Se a campanha vai ser comandada por ele e não por você, pense bem antes de impor um coordenador errado que é seu amigo, mas que terá dificuldade de funcionar sob o comando de outra pessoa. Evite levar gente que representa confusão para o centro de decisão de sua campanha.
CONSELHO POLÍTICO
- Logo abaixo do coordenador de campanha, mas não acima do resto da diretoria, deve vir o Conselho Político da campanha. Essa sim é uma turma a ser pensada. Devem estar ali representados os partidos da sua coligação, além de alguns políticos mais notáveis de sua região ou de seu grupo (atuais ou ex senadores, governadores, prefeitos etc.).
- Tome cuidado para ter um pequeno conselho que seja deliberado, para aqueles momentos de crise da campanha, e outro que seja mais amplo e no qual você tenha um coordenador político experiente com capacidade para encaminhar os assuntos sem que os participantes se sintam menosprezados.
- É importante que esse coordenador seja também um elemento de ligação entre as decisões do grupo e as demais áreas da campanha. Porque não há nada pior que submeter o candidato a assembleias no calor da luta ou, quase pior, o pessoal da comunicação e de outras áreas executivas a ouvir palpites e reclamações de um sem número de pessoas bem na hora em que precisariam estar produzindo. Veja, as colaborações de políticos e de amigos são muito importantes, mas não as de todo mundo e nem a toda hora. Se você é o candidato, cuide que o seu coordenador-geral preserve a equipe, que é o mínimo que ele pode fazer pelo time que está em campo pra ganhar com você.
FINANCEIRO
- Este “quadradinho” do seu organograma deve estar na mesma altura daquele do Conselho Político, abaixo do coordenador-geral. Entenda que a grande maioria das decisões da campanha vai depender do coordenador financeiro, pois é ele que movimenta a máquina.
- O coordenador-financeiro não é apenas um caixa pagador e sim um administrador das finanças desta grande empresa chamada campanha. Ele precisa ter visão estratégica para saber como vai arrecadar e também para resolver quanto e como vai pagar cada um dos serviços da campanha.
- Claro que junto dele devem estar mais arrecadadores (gente de extrema confiança, claro), contadores e advogados (hoje essa área de prestação de contas é a mais importante de todas devido à nova legislação) e o próprio caixa, aquele que organiza e libera os pagamentos nas datas combinadas.
COMUNICAÇÃO, JURÍDICO, LOGÍSTICA, MOBILIZAÇÃO, SUGESTÕES DE PROJETOS DE LEI
- Numa linha horizontal e com mesma importância no organograma ficam todas as outras áreas das campanhas. como organizar o fluxograma para que tudo funcione direito. Como uma empresa daquelas líderes de mercado.
- Escolhidos os coordenadores geral e financeiro da campanha, caberá a eles a tarefa de definir os custos e o cronograma de atividades. Sim, companheiro, primeiro você tem que definir o budget, o orçamento, depois procurar os profissionais para realizar o trabalho. Estranhou? Está acostumado a sair perguntando o que a pessoa/empresa propõe e quanto custa isso? Pois tá errado. Então vamos a um passo a passo:
Começamos comparando a montagem de uma campanha eleitoral à fundação de uma empresa. Se concordamos com isso vamos concordar também com o fato de que toda a empresa que se preze tem orçamento e meta, certo? Ou você já viu alguma empresa que sai gastando, gastando, contratando amigos, familiares, filhos de amigos, aposentados, apadrinhados e depois vai ver como ficou, como paga as contas? Se você já viu, certamente não vê mais, pois a tal empresa deve ter falido ou vive de favores. - Então se você é daqueles que pergunta quanto custa antes de saber o que quer, não pretendo ser grosseiro, mas sinto muito, você é um amador. Eu até entendo, nem toda campanha eleitoral no Brasil é profissionalizada e essa “batata quente” caiu na sua mão meio sem querer, agora você tem que resolver de qualquer jeito (literalmente). Se este é o seu caso, vai aqui um conselho de graça: procure antes se informar, veja o quanto você pode gastar, enxergue o quadro de forma geral, veja quais são as suas possibilidades, procure os melhores profissionais para depois formar a equipe e contratar serviços. E se, ao contrário, você já não é mais marinheiro de primeira viagem e continua cometendo os mesmos erros, hum…deixa pra lá, que a amizade continua, afinal, amigos, amigos, negócios à parte.
- Prosseguindo: não confunda ficar no orçamento com pechinchar serviços profissionais. Vou ser mais claro: faça um orçamento e procure contratar o que tem de melhor, de mais eficiente, dentro desse preço. Não faça politicagem com o que tem de mais fundamental nessa hora, que é o dinheiro que vai fazer a sua campanha rodar de forma competente. Fale com quem entende. Procure o que tem de melhor dentro da sua realidade. Não prometa o que não pode pagar, nem contrate quem você não pode demitir. Também não contrate um serviço apenas porque é mais barato ou porque é amigo. Contrate menos, porém melhor. Ou seja, não jogue dinheiro fora com excessos, firulas, bobagens, frescuras, medalhões, gente que não trabalha ou que trabalha pouco, mas também não desrespeite quem é profissional questionando preços só pra dizer que é esperto.
- Também não vai gastar tudo com um, dois, dez profissionais e pagar salários de fome pro resto só porque eles têm outro tipo de relação com você (já são seus funcionários, dependem de você, não têm outra saída, etc. e tal). Além de injusto é perigoso: gente insatisfeita e sentindo-se injustiçada dentro de comitê eleitoral é um rastro de pólvora.
- Deu pra entender até aqui ou quer que eu desenhe? Desculpa, mas esse assunto de quanto custa uma campanha é enlouquecedor. E a melhor resposta, de longe, é: depende da campanha. Tem a da improvisação e tem a pra ganhar. Tem a da burocracia e tem a profissional. Tem a do time coeso e tem a da divisão. Tem a dos apoios leais e tem a dos desleais. Tem a dos que só vão na boa e tem a dos que estão lá em todas as horas. Tem a do desperdício e tem a da eficiência. Qual vai ser a sua?
- Depois de saber sua real possibilidade de gastos, o recomendável hoje em dia é contratar logo o seu coordenador jurídico. Como diz o um amigo “nos tempos atuais é melhor ter um candidato ruim com um jurídico bom do que ter um candidato bom com um jurídico ruim”. Pensa que ele tá exagerando só porque vai se formar advogado? Um pouco é, mas num tanto ele tem razão.
É verdade. Se não souber a legislação, se não estiver em dia com o que pode e com o que não pode, se o jurídico não for muito ágil e preparado, você corre o risco de ganhar mas não levar. Duvida? Dê uma olhadinha rápida no site do TSE e acompanhe as cassações. Loucura! - A esta altura você já deve ter pelo menos um advogado em sua equipe, pois se é candidato esse ano você já realizou convenção, já registrou sua candidatura, já está constituindo seu comitê financeiro. Mas pode ser que ainda não tenha formado todo o time jurídico, cujo trabalho vai lá até o Dia D. Para levantar os custos desta contratação, leve em consideração que você vai precisar de profissionais que acompanhem especificamente as áreas financeira e de comunicação bem de perto, pois são dois setores que precisam de assessoria jurídica o tempo todo. Veja bem como vai distribuir a sua estrutura, inclusive fisicamente.
- O seu coordenador jurídico pode ser um profissional independente ou representar um escritório. O importante é dar a ele liberdade para que atue com os profissionais da sua (a dele) confiança e que haja relacionamento fácil com as demais áreas da campanha. Se a sua campanha vai ousar, procure um advogado mais peitudo. Se a sua campanha vai ser papai-com-mamãe, vá pelo mais tradicional. Contrate sabendo quem é quem e não apenas quem está mais perto. Cada um tem um estilo. Cada campanha tem uma estratégia. Mas se for para definir o ponto básico na hora de contratar, a questão a prestar atenção é se o time do jurídico tem experiência em campanha eleitoral.
- Voltando mais uma vez ao começo: lembre sempre que o seu coordenador-geral é quem dirige a estratégia e as diversas táticas da campanha como um todo. Ele tem realmente que coordenar todas as áreas, saber como fazer, como definir, como decidir, senão, por melhor que sejam os vários profissionais contratados, sem comandante qualquer barco afunda.
- Já falamos aqui que o organograma da equipe da campanha eleitoral deve ser enxuto, eficiente e, mais do que tudo, ser liderado por um coordenador-geral com perfil executivo. Cabe ao coordenador, entre outras funções, conhecer o histórico e a realidade eleitoral do local onde se realizará a campanha.
- Conhecer não significa apenas ter memória, muito menos opinião, e sim ter feito a lição de casa de ir atrás de dados concretos sobre o passado do eleitor e dos candidatos, seja através de levantamentos no TRE, na imprensa, assistindo às campanhas anteriores…e ter organizadas todas as informações do presente, como apoios, possibilidades e movimentação dos candidatos das chapas majoritária e proporcional, mapas, relação de lideranças…Sim, dá trabalho, mas não basta ser importante, tem que participar!
- Um bom formato de trabalho para o coordenador é o da War Room, a sala de guerra, onde ele tem acesso a todos os dados e pessoas para tomar decisões rápidas e certeiras, como é próprio da sua tarefa.
- Já detalhamos um pouco aqui também as funções do Conselho Político, do Jurídico e do Financeiro. Vamos agora examinar duas outras atividades fundamentais para a campanha, que muitas vezes são deixadas de lado ou perdem a importância diante de outras áreas, mas que são vitais para o bom desempenho da máquina eleitoral. São elas a Logística e a Mobilização.
- A estrutura necessária para fazer o quartel-general da campanha funcionar e todos os seus peões se movimentarem na direção correta até o Dia D. Parece pouco? Pois é muito. Ainda mais com o bom humor, a inteligência e a competência com que se faz isso tudo.
- A Logística é uma área bastante sensível da campanha, pois envolve muitos custos, muita estrutura e muita gente. Já foi ainda mais complexa quando a legislação permitia a distribuição de brindes, camisetas e a realização de showmícios e jantares. Ainda assim o coordenador de logística deve ser uma pessoa de total confiança como todas as outras, e de muita experiência, pois caberá a ele administrar setores gigantes, como os de estrutura, compras, produção e distribuição de materiais, e contratação de pessoal.
- Detalhando um pouco, caberá a ele montar toda a base física da campanha (aluguéis de comitês, desde a central até os distritais, incluindo instalação e pagamento de luz, água, telefone, mobiliário, informática e equipamentos móveis, como telefones celulares e rádios, e às vezes setores inteiros como telemarketing e outros), providenciar todos os veículos e seu devido abastecimento de combustível, montar e controlar o almoxarifado de materiais para distribuição (folhetos, adesivos, praguinhas, jornais), além do almoxarifado de materiais internos de escritório , produtos de limpeza e alimentação (vamos combinar que sem pelo menos água e café, não dá, né?
- Deu para acompanhar até aqui? A Logística envolve muito recurso financeiro e muita administração para funcionar direito. Fora a parte mais complicada, que eu deixei para o final: o coordenador de logística tem que gerenciar toda a área de RH (recursos humanos) e isso quer dizer contratar todo o pessoal interno (secretárias, telefonistas motoristas, faxineiras, copeiras, seguranças etc.) e todo o pessoal de rua (gente que distribui material, que cola adesivo, que faz casa-a-casa, que balança bandeira na esquina) e obviamente dar a eles transporte e alimentação. Você já viu aquela cena de greve na frente de comitê, do pessoal de rua que faz manifestação por salário atrasado? Pois é, não há nada pior para a imagem de uma campanha do que isso, você não cuidar nem de quem está suando a camiseta e o coletinho para a sua eleição. Tenha dó, vai!
E se você leu até aqui, muito obrigado!
Bom esse é um breve resumo do que podemos fazer para termos uma campanha vencedora, espero contribuir para todos com esse material!
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para sua campanha e boa sorte!


